Os poemas de Sentimento do mundo foram produzidos entre 1935 e 1940.
São 28 no total.


Poema: Sentimento do mundo


O primeiro poema (que deu nome ao livro) revela a visão-de-mundo do poeta: não é alegre, antes,
é cheia da realidade que sempre nos estarrece, porque, por mais que sonhemos, a realidade
geralmente é dura e muito desafiante.
O poeta inicia (estrofe 1) indicando suas limitações para ver o mundo: “Tenho apenas duas mãos”;
mas aponta, em seguida, alguns elementos auxiliares que o ajudarão a suprir suas deficiências de
visão: escravos, lembranças e o mistério do amor (versos 3 a 5); escravos podem ser os meios
escusos de que nos utilizamos para tocar a vida e decifrá-la e dela nos aproveitarmos.
O pessimismo denuncia-se com as mortes do céu e do próprio poeta, na estrofe 2.
Apesar da ajuda incompleta dos companheiros de vida (“Camaradas”), o poeta não consegue
decifrar os códigos existenciais e pede, humilde, desculpas.
Nas duas últimas estrofes, Drummond pinta uma visão de futuro bem negativo, mas bem real:
mortos, lembranças, tipos de pessoas que sumiram nas batalhas da vida (“guerra”, na estrofe 3).
Conclui, na estrofe 5, que o futuro (“amanhecer”) é bem negro, tenebroso. Feita só de dois versos,
sintetiza seu sentimento do mundo.
Os demais 27 poemas são nuances, explicações dessa amarga visão inicial da vida.


Poema: Confidência do Itabirano


O poema começa com a saudade profunda de seu lugar de nascimento, traçado em quatro belas,
mas sofredoras estrofes. Confessa (estrofe 3) que aprendeu a sofrer por causa de Itabira; mas,
paradoxalmente: “A vontade de amor (...) vem de Itabira”; vale dizer que o amor nasce e é servido
no sofrimento. De Itabira vem a explicação de Drummond viver de “cabeça baixa” (estrofe 3), verso
6). Afinal, apesar das negatividades, o poeta sente uma incomensurável saudade de sua cidade
natal.



Poema: O operário do mar


O texto número 6 faz o autor escapar da linguagem poética material (versos) e se apropriar dessa
linguagem poética sem versos, mas bastante poesia imaterial, em belo painel-definição explicita a
grande diferença social entre operários e não-operários.
Esta belíssima crônica poética, de base surrealista – tão em voga nos anos trinta, quarenta – serve
bem para duas constatações:
1ª) o sentimento socialista de Drummond que iria espraiar-se cinco anos após Sentimento do
mundo, na publicação de Rosa do povo, em 1945;
2ª) a visão-de-mundo onírica e bem poética de um operário universalizado em São Pedro; ele anda
sobre águas por graça de Deus, enquanto burgueses se espantam por não poderem realizar a
mágica; isto é, aos humildes: a magia divina, aos prepotentes: a inveja.
Esta crônica poética também pode permitir que se compare a “apreensão do mistério da palavra”
nos poemas explícitos de Drummond diante desta prosa poética; por exemplo: “minhas lembranças
escorrem” (Sentimento do mundo, estrofe 1, verso 4) e “feixes escorrem” (das mãos do operário,
em O operário no mar, linha 26). O mistério poético de lembranças escorrem é bem mais profundo
do que peixes escorrerem imaginariamente das mãos do operário.



Poema: Privilégio do mar


No poema 12, o autor continua detendo-se alegoricamente no problema social das diferenças
humanas.


Poema: Inocentes do Lelbon


Ainda no enfoque da visão social, o poeta fala da riqueza: “inocentes” significa os que querem
ignorar; por isto fingem e se aproveitam.



Poema: La possession du monde


Neste poema 17, Drummond indica o membro da Academia Francesa de Letras, em 1884,
Georges Duhamel, pedindo uma risível fruta estragada; como se isso fosse, como diz o título do
poema, ter o mundo nas mãos.



Poema: Ode no cinqüentenário do poeta brasileiro


O belo elogio do poema 18 é a palavra drummondiana a Manuel Bandeira, nascido em 1886 e que,
em 1936, completava 50 anos de vida. Drummond pede que “seu canto confidencial (a poesia de
Bandeira) ressoe acima dos vãos disfarces do homem”!
E para concluir esta fugaz visão do livro Sentimento do mundo, fiquemos com as palavras do
último poema, Noturno à janela do apartamento: “ A vida na escuridão absoluta, como líquido,
circunda”.


Fonte: Análise de Célio Pinheiro, professor de Literatura, Araçatuba-SP

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